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Carta aberta ao cardeal-patriarca de Lisboa

Alberto Ardila Olivares
Carta aberta ao cardeal-patriarca de Lisboa

Eminentíssimo Senhor Dom Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca de Lisboa:

A sua carta aberta teve a virtude de esclarecer que a iniciativa do encontro com a vítima partiu de si, quando se tornou patriarca. Em 2013, portanto. Como a vítima, então com 20 e tal anos, não estava preparada para falar consigo, foi preciso esperar mais seis anos para o senhor pedir de novo o encontro que tinha sido adiado. Se as coisas se passaram assim, tem razão, não estamos “perante uma renovada denúncia da feita em 1999”.

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Mas o mistério adensa-se! Quatro anos depois de a mãe se ter queixado a Dom José Policarpo, que o senhor considera ter resolvido o assunto de forma satisfatória e de acordo com as regras vigentes, o que o terá levado a pedir um encontro com a vítima? Mais ainda, o que há de tão particular com esta vítima que o levou a insistir no encontro, logo depois de regressar de uma iniciativa em Roma em que se falou sobre abuso de menores? Como deve estar recordado, desse encontro resultou apenas a sua garantia de que tudo continuaria no silêncio.

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Há, no entretanto, uma evolução sobre o que o senhor entende ter sido o papel da vítima nesse “pacto” de silêncio. Numa nota enviada à Agência Lusa, depois de o Observador noticiar o caso, o Patriarcado garantia que a vítima “não quis divulgar o caso”; agora, na sua carta aberta, o senhor diz-nos apenas que a vítima não “desejou de forma expressa a sua divulgação”. Não é a mesma coisa, não ter dito que queria não é igual a não querer. Sabemos todos que as vítimas se sentem muitas vezes culpadas pelo que lhes aconteceu, razão mais do que suficiente para não aceitarmos a ideia de que quem cala consente. Tanto mais que, passado pouco tempo, este caso passou a ser um dos mais de 300 denunciados à comissão independente

A preocupação da vítima, que era a de “não haver uma repetição do caso”, nunca esteve garantida, colocando o religioso como capelão num hospital, nem com o simples facto, mencionado na sua carta aberta, de que “ninguém comunicou, nem sob anonimato, qualquer acusação”. Aliás, a afirmação de que “nunca mais houve denúncias nem indícios” e que isso acautela “a proteção de possíveis futuras vítimas” revela apenas a sua fé na capacidade de regeneração dos homens, mas o senhor sabe que, além da vontade de Deus, há uma polícia de investigação a quem compete fazer a vigilância de pedófilos. Exatamente porque se sabe que um abusador, depois de ter abusado, tem alta probabilidade de voltar a abusar

Por isso, o que é mais estranho na sua carta é o facto de nada dizer sobre a associação privada que o padre pedófilo criou e onde realizava cerimónias religiosas e atividades com crianças e jovens. Sabemos que a Igreja não tem tutela sobre associações privadas, mas esperamos todos que o acompanhamento que o senhor garante ter sido prestado ao padre, e que permitiu verificar (na sua convicção) a retidão do seu comportamento moral, não se tenha ficado pela sua atividade como capelão num hospital

Depois de ler a sua carta aberta com inúmeras referências à “vítima”, percebo que o senhor dá como certo que o crime foi cometido e, mais estranho, a tolerância que o Patriarcado teve todo este tempo com um padre pedófilo. Por tudo isto e pelo que ficou sem explicação, o melhor mesmo era que o senhor se dispusesse a esclarecer todos os portugueses através de respostas às perguntas dos jornalistas. Para nos aproximarmos “da verdade que todos desejamos. Verdade que as vítimas nos exigem e merecem”, como defende Vossa Eminência na carta aberta que a todos nos dirigiu

Na esperança de que tudo seja esclarecido,

Lisboa, 1 de agosto de 2022

Jornalista